escola galega de psicoanálise ten o obxectivo de psicoanalizar o anthropos galego a través de produtos culturais, movementos ideolóxicos e creacións artísticas.
mércores, 23 de outubro de 2024
COMPOSTELA 1968, vitor vaqueiro
1. Que levou os estudantes a se revoltarem no 68?
Bem, poderíamos dizer que houvera daquela dous movimentos de natureza diferente que, num ponto no tempo, vieram a convergir. O primeiro baseou-se na ideia óbvia de termos um ensino baseado em princípios autoritários e seletivos, reservado a classes sociais abastadas e que, em muitos aspetos, era de má qualidade. O segundo, a consciência de que todo o sistema era ditatorial, portanto antidemocrático e, portanto, injusto. Em suma, entendeu-se que só a liquidação da ditadura
poderia levar a uma sociedade em que sobranceassem a justiça, a igualdade, a racionalidade e que tivesse em conta a realidade galega na que se achava inserido.
A faísca que acendeu o fogo foi o comportamento do decano da faculdade daquela chamada de Ciências, Joaquin Ocón, um personagem de cerne profundamente franquista, que chegou a reter o dinheiro pertencente a associação de estudantes daquela faculdade. No início de 1968, começou o conflito com assembleias e greves, como eu disse, em Ciências, seguido por uma greve geral que se estendeu ás outras faculdades, com o fechamento da Universidade pelo reitor Echeverri, com expedientes para os setores estudantis, mais combativos, com a renúncia do próprio reitor nesse mesmo ano e sua substituição por um reitor filo-fascista como Garrido.
2. Existía unha alianza (como em Franza) cos obreiros?.
Cómpre sublinhar que a oposicáo mais organizada ao franquismo, também na universidade, era, majoritariamente, de tendéncia marxista, contendo no seu interior correntes comunistas, socialistas e, em menor medida, naquela altura, nacionalistas, sem dever, porém, esquecermos, além disto, de correntes cristãs como a XEC (Xuventudes de Estudantes Católicos). Nesse sentido, pola própria estrutura da oposição, existia um pensamento que tinha mui em conta a questão da luta de classes, que opinava que esta era o motor da historia, que o proletariado era a força essencial impulsora do movimento e, como conseqüência, em abstrato, formulava-se, polo menos em teoria, a aliança à que te referes. Mas, além dessa formulação, como digo, estritamente teórica, pouca relação, até onde eu lembro, existia entre ambos os sectores. Lembro, isso é certo, ações de solidariedade como, no ano 1969, o movimento de apoio económico, em forma de coleta, à greve de Peninsular Maderera e manifestos, em dias sinalados, como o Primeiro de Maio.
3. Cales foron as vosas reinvindicacións?
Essencialmente, penso que isso está já contestado na primeira pergunta.
4. A acción social tivo repercusións en que eidos?
Penso que toda ação social que se enfrente ao estabelecido tem, em maior ou menor medida, repercussões e, neste sentido, o movimento de 1968 mostrou distintas conjunturas e produziu diferentes efeitos. Em primeiro lugar, sobre o próprio movimento estudantil, como o demonstra o feito de que, no ano do que estamos a falar, o número de pessoas a militarem em organizações políticas na universidade de Compostela não chegava, penso eu, às 100, enquanto cinco anos mais tarde esse número quase atingia os 1.000 efetivos, o qual fala do processo de consciencialização que se produziu no seio do alunado. Em segundo termo, como consequência das detenções, os expedientes, as expulsões da universidade, em definitiva, a repressão, o movimento foi quem de mostrar a verdadeira face da ditadura, o seu caráter autoritário, classista, antidemocrático e injusto. Ademais, produziu-se um efeito não menor, como foi a penetração entre o estudantado duma ideia, a da necessidade de refletir sobre a relação entre a universidade e a Galiza. É significativo que o Partido Comunista de Espanha substituísse esse ano o termo “Espanha” por “Galicia”, da mesma maneira que resulta de interesse considerar que o nacionalismo passasse de ser uma força secundária na universidade a se converter, como che dizia, cinco anos mais tarde e depois da fundação, em 1972, de ERGA (Estudantes Revolucionários Galegos) na primeira força, com um número de militantes por volta de 400, juntamente com a MGR (Mocidade Galega Revolucionária), na esteira do Movimento Comunista de Espanha que, por certo, igualmente, com a passagem do tempo mudou o seu nome polo de Movimento Comunista de Galicia e, posteriormente, Inzar. É igualmente significativo lembrarmos que é justamente o 25 de julho de 1968 quando o nacionalismo pendura uma faixa na Alameda de Compostela com a reivindicação “Viva Galiza ceive”.
5. Cal foi a performance que recordas máis significativa?
Se sou quem de traduzir a palavra “performance” ao que eu imagino que me queres perguntar, intuo que te estás a referir a ações ou ocorrências mais ou menos singulares. Em realidade, tomando a tua palavra, performances eram quase todas, porque já me dirás como poderíamos qualificar, por exemplo, alguma concentração de protesta (estou a pensar numa concretamente na Praca do Toural) na que há mais policias que manifestantes. Ora, por me cingir ao que me perguntas, diria-che que lembro ações como as queimas de exemplares do jornal El Correo Gallego, pola sua “informação” tendenciosa e, em muitos casos, falsificadora da realidade. E lembro como vivi, com emoção e uma notável tensão interior, a assistência, na primavera de 1967, o recital de Raimon no estádio da Residência. Penso que a assisténcia ao recital de Raimon, naturalmente em catalão, foi um momento chave no meu evoluir posterior, não tanto no que se refere a mudança de perspetiva pessoal mas de afirmação dos meus pontos de vista sociais e políticos, até certo ponto dubitativos naquela altura, ainda com dez e oito anos.
6. Houbo manifestos... lembras-te de escrever/coescribi-los?
Por suposto que houve manifestos, inumeráveis, relativos ao movimento na universidade. Em concreto, existiam unhas folhas informativas dos estudantes de Ciências, faculdade na que eu me achava e que melhor conheço, que informavam com freqüência do transcurso das negociações co decanato ou co reitorado, das mobilizações, das detenções ou das ações repressivas que a polícia levava a cabo. E, com efeito, lembro a participação na redação dalgum manifesto, bem como do reparto na faculdade de folhas clandestinas, mas isto já é no ano seguinte, 1969. No 68, não.
7. Como foi a reacción da sociedade (sobre todo santiaguesa) perante a revolta?
Em geral, a reação da sociedade compostelá foi mui boa. Do meu ponto de vista, por dous motivos essenciais: em primeiro lugar, porque a mocidade universitária se achava, vou arriscar esta hipótese, muito mais inserida na cidade que hoje. Tens de levar conta que daquela estava a se construir o Ensanche, a parte nova, o qual quer dizer que quase todo o mundo jantava, ceava, ia de vinhos ou tomava café na parte velha, o Franco, a rua da Rainha, as Algálias. O contacto era mui estreito entre o estudantado e os proprietários das casas de comidas, dos cafés, dos bares ou tavernas. Esses proprietários (daquela praticamente não existiam proprietárias) ou camareiros e camareiras (que existiam) falavam a diário com centos de estudantes (e clientes) que eram pessoas nas que não se alviscava por nenhures nada extraordinário, nem muito menos, como dizia o regime, subversivo e que, por regra, iam a Compostela fazer uma carreira. E, aliás, existia um ponto de vista segundo o qual (tirando o setor da construção, nomeadamente o dedicado as “fachadas”) as reivindicações eram essencialmente justas e o regime franquista não tinha nem legalidade nem legitimidade. De fato eu lembro, em dias de manifestação, casos de bares, restaurantes ou casas particulares a oferecerem a sua vivenda para os manifestantes que fugiam da policia poderem-se acobertar.
8. O feminismo como unha forza destacada?
Verdadeiramente, há meio século o feminismo na Galiza era, até onde eu sei, algo que, na prática, não se achava presente no panorama reivindicativo, cujo motor central, no Estado Espanhol, norteava-se na luta, segundo comentei, contra a ditadura. Ora bem, que fosse, como organização global, política, praticamente inexistente, não quer dizer que se negue a existência de mulheres com consciência de existir desigualdade e discriminação por género. Deve-se ter em conta que o que se tem chamado a segunda onda feminista tem a sua origem justamente por volta do ano 1968 e isso ocorre nos Estados Unidos. Até onde a minha memória pode chegar, penso que as organizações feministas na Galiza aparecem depois da morte do ditador em 1975. Mas, conectando com uma pergunta tua anterior, penso que o movimento do 68 contribuiu a fornecer pensamento sobre diversas áreas, como a questão nacional, a cultural, a ecologista e outras entre as que se achava também a do feminismo. Seja como for, no ano 1968, é indubitável que existia uma certa fração de mulheres que reclamavam igualdade com os homes.
9. Como e por que rematou a revolta?
Em verdade, a revolta não rematou. Se entendermos o fator humano como um processo, é preciso dizer que muitas, bastantes, algumas das pessoas que vivemos aqueles anos ficamos definitivamente
presas polo pensamento que o 1968 gerou e que, no meu próprio caso, supus uma mudança na vida. Como acontece em qualquer acontecimento social (emprego e termo acontecimento no sentido que lhe outorga Alain Badiou), há pessoas que, a dia de hoje, seguem fieis a aqueles princípios, ainda que uma boa parte demitisse ou transitasse para espaços sócio-políticos mais cómodos, não sei se me explico bem...
10. Pode-se dar de novo unha revolta como a do 68?
Já sabes o que dizia Mark Twain: “É difícil fazer previsões, nomeadamente aquelas que se referem ao futuro”. Se algo nos ensina a História é que as cousas acontecem, em geral, de maneira diferente a como eram imaginadas e um dos elementos fundamentais que enfeitam os processos sociais é o seu caráter imprevisível. Quem podia predizer a queda do Muro no 1989? Quem podia, no ano 2007, predizer a crise que haveria de vir? Quem imaginaria uns anos mais tarde muitas pessoas verem o seu salário reduzido à metade ou perderem um trabalho que julgavam estável? Por suposto, as condições atuais para uma revolta são tão fortes como as daquela altura já que, segundo julgo, a desigualdade só cresceu. Mas, em contra do pensamento de esquerdas clássico que julgou sempre que as “condições objetivas” eram as determinantes, eu acho que são as “condições subjetivas” as que explicam muitos comportamentos sociais: a vitoria de Trump ou a persistência do voto ao Partido Popular na Galiza. Dito noutras palavras: são as condições subjetivas as que explicam, por exemplo, o desempenho de setores trabalhadores a votarem contra os seus próprios interesses e da que a mini-série The loudest voice, A voz mais alta, que narra a história do perseguidor sexual e presidente da Fox News Roger Ailes e a chegada de Trump á Casa Branca, fornece certas chaves nas que pagaria a pena refletir.
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